Nos últimos anos, diversas pesquisas sobre o tema tem sido publicadas, esclarecendo muitos dos efeitos da aplicação da tensão em tecidos cicatriciais.

Hoje já sabemos que a aplicação da tensão adequada favorece a reorganização do colágeno cicatricial,  há pouco tempo, utilizávamos somente bases e estudos relacionados. Hoje, conhecemos os tipos de tensões e seus efeitos, sabemos os fatores que alteram o metabolismo da matriz extracelular, os tipos de carga mecânica e também sabemos que para alcançarmos os efeitos desejados, é importante respeitar as variáveis como tipo de carga, duração, amplitude e frequencia da carga.

O diferencial no trabalho desenvolvido pela Dra Mariane Altomare é que as pesquisas são aplicadas diretamente do laboratório para a clínica, favorecendo um tratamento consciente e adequado para cada tipo de intercorrência, o que possibilita um resultado eficaz e efetivo.

Tensão Mecânica X Reparo Tecidual

As lesões do tecido conjuntivo são reparadas pela síntese de colágeno. A atividade fibroblástica, que forma o colágeno, demanda a aplicação do alongamento passivo, para assegurar o adequado remodelamento do colágeno, para torná-lo bem organizado, pois a tensão controla a direção e o alinhamento dos feixes de suas fibras. A atenção do fisioterapeuta é imprescindível nesta situação, uma vez que o tecido cicatricial depositado excessivamente durante o reparo tecidual é limitante e prejudica as funções teciduais.

Tensões mecânicas aplicadas ao tecido em cicatrização promovem uma organização dos feixes de colágeno de uma forma mais natural, com mais elasticidade do que quando não aplicada a tensão.

À medida que o processo de cicatrização avança, a estrutura do colágeno vai se tornando mais forte e resistente. Abordagens terapêuticas inadequadas podem agravar o quadro de rigidez e dificultar a resolução do quadro, uma vez que os tecidos cicatriciais devem ser tratados de acordo com suas características de alta resistência e falta de flexibilidade.

O processo de cicatrização leva freqüentemente à formação de contraturas que poderão limitar a função do indivíduo. A prevenção da mesma deve ser o objetivo primário da terapia. A aplicação da tensão mecânica nos tecidos em cicatrização é utilizada como forma de prevenção e controle da formação de contraturas.

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Como já foi dito anteriormente, é necessário que se aplique uma carga de tensão mecânica adequada para promover o alinhamento do colágeno, e a movimentação é necessária para se evitar uma deposição indesejada de colágeno, fatores que podem gerar limitações na amplitude de movimento devido à formação de contraturas.

Mudanças no estresse mecânico afetam diretamente o equilíbrio da matriz extracelular. As fibras colágenas se tornam orientadas rapidamente após aplicação da tensão mecânica. Com a evolução do processo de reparo, a cicatriz se encurtará como resultado da tração do tecido cicatricial e limitará a amplitude de movimento e a sua função, a menos que se interfira nesse processo.

É muito importante lembrar que quando os tecidos adjacentes às cicatrizes cirúrgicas estão sem flexibilidade, qualquer pequeno movimento pode tracionar os bordos da cicatriz e levar ao alargamento e até a hipertrofia desta, mais uma vez, é imprescindível devolver a flexibilidade aos tecidos acometidos.

Forças mecânicas

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Já se tem comprovada algumas ações de forças mecânicas nos tecidos cicatriciais. Esses resultados respaldam a LTF. As mais importantes são:

Compressão

A compressão estimula a liberação de enzimas que degradam o tecido excessivo (metaloproteinases). Utilizamos a força de compressão quando queremos que o tecido seja degradado, como quando utilizamos placas de silicone em cicatrizes e quando usamos as placas de pós operatório em fibroses.

Tensão

A força de tensão é a base de muitos tratamentos manuais utilizados na fisioterapia. Através dos estudos da mecanobiologia tecidual, observou-se o fenômeno da mecanotransdução, e esse fenômeno explica as respostas celulares quando se aplica a força de tensão.

A tensão tem vários aspectos, duração, intensidade, profundidade, cada um com uma resposta diferente. Hoje sabemos que tensões muito intensas e duradouras aplicadas em tecidos cicatriciais não são tão efetivas como as tensões mais suaves e breves.

A tensão deve ser aplicada nos tecidos cicatriciais respeitando sua resistência, para que se tenha os efeitos benéficos desta força, que são o rearranjo das fibras colágenas, a diminuição da secreção de TGF?1 (citocina responsável pela formação de fibroses), entre outros.

Resultados Parciais das Pesquisas Realizadas no LRT – Laboratório de Reparo Tecidual — UERJ

Com bases dos ultimos estudos publicados, estamos desenvolvendo uma pesquisa para avaliar os efeitos da tensão mecânica em tecidos cicatriciais. O modelo proposto, é uma adaptação para que se possa utilizar os benefícios da tensão mecânica em tecidos cicatriciais, onde muitas vezes o paciente se encontra impossibilitado de realizar o estiramento através de alongamentos (é impresindível proteger as cicatrizes). Utilizamos a aplicação de estiramentos manuais para avaliar a efetividade desta modalidade de tensão, buscando resultados semelhantes aos descritos pelos pesquisadores nos trabalhos com alongamentos.

Nosso experimento comprovou que a aplicação de tensão mecânica manual teve efeitos benéficos na redução e reorganização do tecido fibrótico formado após a lesão tecidual.

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Cortes histológicos corados com HE mostrando os 3 grupos avaliados. O asterisco mostra a região que sofreu lesão por descolamento e os resultados do tratamento na quantidade e na organização das fibras colágenas.