Atualmente, existem diversos recursos que são utilizados em tratamentos pós operatórios, porém é importante lembrar que a estrutura do tecido cicatricial é formada por deposição de matriz extracelular (principalmente colágeno) e todo tratamento que tenha seu efeito fisiológico em incentivar a síntese de colágeno, na verdade estará formando ainda mais tecido cicatricial, produzindo ainda mais fibroses. Por isso é tão difícil atualmente resolver as fibroses.  A abordagem está equivocada…

Podemos classificar o processo de reparo de três formas: (1) NORMAL- Onde os eventos ocorrem como esperado, sem alterações, seguindo as cascatas inflamatórias que têm características clássicas, variam de acordo com o gravidade da lesão e com o metabolismo de cada indivíduo. Como a técnica utilizada em cirurgias plásticas é agressiva aos tecidos, o processo é naturalmente intenso, seguindo com formação de tecido cicatricial para restaurar o dano tecidual. O tratamento se baseia simplesmente em organizar o que o organismo está depositando, sem provocar estímulos. (2) EXAGERADO – Onde os eventos acontecem de forma excessiva e seguem com fibroses intensas, aderências, dores, retrações, edemas persistentes, cicatrizes hipertróficas e/ou quelóides. Acontece quando ocorre uma alteração em algum momento no processo cicatricial e pode ser deflagrado por tratamentos que estimulam os efeitos fisiológicos do processo de reparo normal, como por exemplo, a síntese de colágeno e o desequilíbrio das tensões intrínseca x extrínseca. (3) DEFICIENTE – Ocorre quando existe alguma dificuldade do organismo cicatrizar por si só, neste caso, é importante utilizar recursos fisioterapêuticos que auxiliem o processo. Lembrando que é extremamente importante avaliar a causa deste déficit para que se possa oferecer ao paciente a abordagem terapêutica adequada.

Por isso defendemos que em hipótese alguma deve-se utilizar protocolos pré estabelecidos em pós operatórios. Cada paciente segue um tipo de cicatrização e a abordagem errônea pode prejudicar os resultados da cirurgia.

Infelizmente, muitos profissionais atuantes na área ainda desconhecem eventos importantes do processo de reparo tecidual e oferecem tratamentos não adequados para tal. Seria interessante que os profissionais estudassem profundamente os eventos do processo de cicatrização para compreender o porquê de muitas condutas serem inadequadas e porquê não deveriam ser repetidas pelo simples fato que “todos fazem” ou “o médico mandou”. É responsabilidade do fisioterapeuta apresentar tratamentos embasados cientificamente para o médico.

O tratamento adequado se dá através da organização do tecido excessivo, sem provocar a síntese, para que se possam estimular respostas adaptativas do organismo, conduzindo ao processo de cura da lesão e devolução da mobilidade e funcionalidade.

Vamos abordar alguns dos recursos hoje utilizados e que – de acordo com o raciocínio da reorganização tecidual para tratamento de fibroses – estão inadequados para este fim:

Ultra Som

O US é um dos recursos mais utilizados em tratamentos pós operatórios em associação com a drenagem linfática.

Muitos estudos mostram os efeitos benéficos do US na cicatrização de feridas, porém, é importante lembrar que em cirurgias plásticas, não apresentam lesões “tradicionais” de muitos destes estudos. A lesão provocada pela cirurgia plástica, é uma lesão em descolamento, que caracteriza um ambiente metabólico isquêmico e este ambiente modifica a interação do US com os tecidos biológicos. Veja abaixo, um dos resultados do trabalho de mestrado da Dra Mariane, publicado na revista Wound Repair and Regeneration (Ultrasound accelerates healing of normal wounds but not of ischemic ones PMID: 19821959) que mostra a diferente resposta do US nos diferentes tipos de lesão, “normal”e isquêmica.

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Wound Repair Regen. 2009 Nov-Dec; 17(6):825-31

Carboxiterapia

A carboxiterapia consiste em uma técnica onde se utiliza o gás carbônico medicinal (dióxido de carbono ou CO2  ou anidro-carbônico)  injetado  no  tecido  transcutâneo,  estimulando  assim  efeitos  fisiológicos  como melhora da circulação e oxigenação tecidual, angiogênese e incremento de síntese de fibras colágenas (Fonte: PARECER DO GRUPO DE TRABALHO FISIOTERAPIA DERMATOFUNCIONAL DO COFFITO).

Como a definição da técnica já nos mostra, ela incentiva a síntese de colágeno e outros eventos, o que não é indicado em tratamentos para fibroses.
Outro aspecto negativo desta técnica, é a interação do gás em um ambiente metabólico cicatricial, onde existem diversas reações diferentes das estudadas nos trabalhos com carboxiterapia. O tecido cicatricial é diferente estrutural e metabolicamente, e a interação no gás neste ambiente alterado é altamente prejudicial, agravando a formação das fibroses não só pelo trauma da introdução do gás, como pela interação das moléculas do gás com o tecido cicatricial. Um bom exemplo é lembrar que o mesmo gás é utilizado em cirurgias laparoscópicas diversos estudos mostram como principal efeito indesejado da presença do gás nos tecidos a formação se aderências severas no pós operatório.

Radiofrequencia

A radiofrequancia tem sido muito difundida no tratamento para fibroses, com o objetivo de aquecimento. É importante lembrar que nenhum aparelho de radiofrequencia emite calor sem emitir a energia da radiofrequencia e essa energia estimula as células (fibroblastos) a produzir colágeno. A utilização deste tipo de energia pode afetar o mecanismo fisiológico de cicatrização – que já é intenso –  e provocar mais fibroses. Em casos de fibroses tardias, o calor é benéfico, mas é preciso verificar se a síntese provocada pelo estímulo dos fibroblastos não estará aumentando a fibrose. Caso o tratamento não esteja se mostrando eficaz em até 3 aplicações, o ideal é mudar a abordagem.

Massagens Diversas (Do Tecido Conjuntivo, Turbinadas, Modeladoras, etc.)

Assim como qualquer abordagem fora dos parâmetros estudados pelos vetores de tensão mecânica, massagens mais “intensas”  ou fora dos parâmetros podem afetar o equilíbrio entre as tensões extrínsecas e intrínsecas que atuam no tecido cicatricial, fazendo com que o quadro se agrave.
Toda abordagem manual deve ser feita respeitando as resistências do tecido, a terapia nunca deve provocar dor.